O Segundo Despertar

Publicação: 27 de maio de 2010

– Ainda não consegue se levantar?

Ele pergunta, com o tom sarcástico que gosta usar. Não preciso olhá-lo para saber que ele está sorrindo. Tive tempo o bastante para decorar suas atitudes. Afinal, aqui neste lugar escuro, estamos a sós. Não me lembro quando isso começou, mas sei que já houve luz. Já houve um lugar antes do nada. Então aos poucos, tudo foi escurecendo. Claro que nenhuma arma atira sozinha e, embora carregada, eu me enganava acreditando estar no controle. Até que puxaram o gatilho. E quem puxou o gatilho não foi nada mais, nada menos do que o acaso. Um fato isolado que afetou a muitas pessoas e que fugiu do controle de todos. Até do meu. Irônico, não?

Sem muito interesse noto que estou almoçando, quase nunca sorrindo e demonstrando um extenso vocabulário monossilábico. O piloto automático ligado, fazendo o que sempre fiz, mas pior do que sempre fiz. O segredo pra identificar uma pessoa na minha situação é a falta de inovações. Tudo igual, nunca diferente. Claro que, para se notar isso, é necessário um grande conhecimento sobre a pessoa e um dom de observação aguçada. Afinal, se fosse tão fácil assim não haveria muitos suicídios mundo afora. O ódio que vem crescendo ao ver que ninguém nota algo errado enfia suas gélidas garras em mim mais uma vez. Dou-me por satisfeito com o modo em que meu corpo executa as ações pré-programadas por anos de costume e volto para a minha morada. Meu mundo negro.

– Se não vai se levantar desista de vez. – ele riu – Nem vai precisar checar o que está acontecendo. Me deixe tomar conta disso pra você.

Caso eu faça isso, ele vai cometer diversos atos que eu repudio e causar sofrimento para muitas pessoas que me são queridas. Pessoas que não percebem meu verdadeiro estado. Será que vale a pena?

-Não.

Mas o que ele sabe? Sempre viveu aqui, neste lugar, sozinho e no escuro.

Interessante.

Se ele sempre viveu aqui, então nunca houve luz. Dizem que onde há luz existe trevas, porém onde há trevas existe luz? Questão interessante, profunda e filosófica. Questão que não ajuda nem um pouco. Ainda não consigo entender como um completa o outro. É lógico afirmar que ele nem sempre esteve aqui. Sim, lógica. Posso utilizar a lógica pra descobrir um meio.

– É lógico concluir que sou mais forte e estou mais apto que você.

Embora eu não consiga discordar, eu não quero concordar. Me pergunto quantas pessoas passaram por situações como essa em suas vidas. Fugir da dor que sentiam e acabar em um lugar como esse. E então passar a tentar fugir desse lugar. No meu caso, é tentar fugir do que encontrei nesse lugar. Também me pergunto se elas fracassaram de um modo tão ridículo quanto eu fracassei.

Ouço a voz do meu pai vindo de longe.

Está tudo bem, filho?, ele pergunta.

Sim, a resposta sai automática da minha boca.

Ótimo, ele termina a conversa.

Sinto um ódio profundo crescendo em meu peito. Ninguém percebe que há algo errado. Ninguém nota que estou agindo estranho. Todos acreditam nessas mentiras que saem de alguém que mais parece um robô.

– Quem será que poderia fazê-los pagar?

O sarcasmo nessa frase deixa mais que óbvio que ele é capaz de fazê-los pagar. Pagar por não notarem o que está acontecendo comigo. Saciar esse ódio crescente.

– Eu desisto. – falei.

E foi simples assim. Com essa frase, meu corpo saiu do piloto automático e eu assisti daquele mundo negro através do que parece ser janela brilhante. Ele controlou meu corpo e causou uma chacina. Estranho. Quanto mais ele ri e se move, mais meu ódio aumenta. Eu vi meu pai e minha mãe serem mortos por minhas mãos que estavam sendo controladas por ele. Mas não adianta tirar a culpa de cima de mim. A verdade é que eu sou o culpado. Eu e mais ninguém. Nesse momento eu notei que nunca os odiei. E esse ódio continua a crescer.

Com um esforço imensurável eu fui capaz de atrair a atenção dele antes que ele alcançasse minha irmã. Minha pequena irmã. Sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto quando meus olhos se encontraram com o daquela criança através da janela que agora é minha única fonte de luz.

– Você não. – ouvi ser dito pela janela.

Então meu corpo se virou e saiu pela porta do quarto, fechando-a ao passar.

Observei-o limpar o sangue do meu rosto o melhor possível pelo reflexo do espelho do corredor. Enquanto ele arruma os meus cabelos eu noto que a janela me permite ver através dos meus olhos. Ele pegou uma das blusas que meu pai deixou jogada pela casa e a vestiu para esconder as manchas da camiseta. Enquanto ele faz essas coisas, consigo notar a imensa satisfação que ele sente.

Observo a porta ser aberta e ele passar por ela puxando-a com a ponta dos meus dedos. Aquela janela começou a perder seu brilho e desaparecendo. Desesperado na vazia escuridão, imploro para que o tempo volte e eu possa desfazer o que foi feito.

– Hora de encontrar meus irmãos. – ouvi-o dizer com a minha voz.

A porta se fechou.



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3 Respostas para
     “O Segundo Despertar”

  • Paulo Fodra disse: 27 de maio de 2010

    Fantástico. A janela brilhante na escuridão… o distanciamento impotente de quem fica perdido nas trevas de si mesmo e perde o controle da própria vida… Uma evolução assustadora em relação ao ‘primeiro despertar’. O que você tem tomado, hein?

  • O Voô do carcará disse: 27 de maio de 2010

    O verde colombiano.

  • Douglas disse: 27 de maio de 2010

    Pedro…ta melhorando heim…
    Muito bons os contos cara…meeedo rsrs que sinistro…
    curti mesmo.
    continue assim rapaz…melhorando sempre!

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