Lembranças

Publicação: 16 de julho de 2010

Essa doença vem consumindo meu corpo há anos e eu nem sei seu nome. Recebi diversos diagnósticos diferentes, mas nenhum tratamento foi eficaz. Alguns até melhoraram a situação por alguns dias, mas nada além disso. Tudo começou com o que parecia uma infecção, uma bactéria em um local isolado do meu corpo. Tudo está acabando com o que parece uma infecção, uma bactéria, em meu corpo inteiro.

Conforme os dias passavam, eu tinha a esperança em ficar curado e voltar a viver a minha vida. Conforme os meses passavam a esperança foi sumindo. Ao completar o primeiro ano, eu já estava acostumado com essa condição. Virou algo normal e eu lidei com isso. Até que começou a espalhar. Da primeira vez foi possível controlar e tudo voltou para o “normal”. Eu passei a agir normalmente escondendo o medo que se instalou em minha mente.

Então espalhou novamente. E não foi possível controlar. A dor aumentou, assim como o desespero. Fiz o que qualquer pessoa normal faria nessas situações: fiquei agressivo com tudo e todos, jogando a culpa neles. Médicos incompetentes, pessoas incompreensíveis. Algum tempo depois eu aceitei a verdade de que a culpa não era deles, mas que eu fazia aquilo por causa do medo que eu sentia. Claro que na época eu jamais admitiria isso.

A dor que sentia ao andar se tornou grande demais e eu ganhei a minha primeira cadeira de rodas. No começo, uma piada. Apostava corrida com os amigos e conversava com as amigas enquanto elas empurravam minha cadeira. As vezes até dava uma carona pra minha namorada. Só que em questão de dias comecei a perceber as dificuldades. Eu, que sempre estava presente quando todos saiam, comecei a ficar pra trás quase todas as vezes, impossibilitado de acompanha-los em alguns lugares. Mas nos primeiros meses eles ainda se lembravam de mim, me visitavam e me levavam em lugares acessíveis. Levou mais tempo do que eu pensava para ser esquecido, mas aconteceu. Sobrou a família, o melhor amigo e a namorada.

Sobrou pode ser um jeito cruel de dizer, mas é a verdade. Eu me perguntei bem mais de uma vez: “Se eles pudessem, será que me esqueceriam também?” e “Será que ainda estão aqui por dó?”. Eu sempre acreditei que a resposta fosse não. Para ambas as perguntas. Aliás, eu tinha que acreditar. Não me sobrou muita coisa e perder eles ou reconhecer que não os perdera por dó seria demais pra mim. Foi no começo da primavera, quando eu estava completando 4 anos e alguns meses de doença, que eu comecei a tossir sangue. Então foi o momento das surpresas.

Os médicos falaram que, tossindo sangue assim, 6 meses de vida era uma estimativa provável. Claro que não poderiam dar certeza, afinal ninguém acertou o que eu tenho até agora, mas mesmo assim eles deram. Acho que foi o certo, pois eu pude finalizar os assuntos que me restaram. Eu fiz uma lista, mesmo que não muito extensa, do que eu faria nesse tempo. Os itens da lista foram vender meu carro, dar todo o meu dinheiro para meu melhor amigo abrir sua empresa, ajudá-lo no começo da empresa, pedir minha namorada em casamento e morrer noivo dando menos trabalho possível para todos. Passados os 6 meses e ainda vivo, voltei a andar. Com dor, mas preferi assim. Decidi que não ficaria preso ali até o final. Ainda tossindo sangue, eu sempre carregava alguns lenços de pano no bolso quando saia de casa, o que se resumia a uma visita por semana na empresa do meu amigo manter minha parte nos eixos.

Se passaram 8 meses desde que os médicos me deram uma estimativa de vida. Era noite e eu estava em casa com meus pais. Jantei arroz, carne moída e tomei um suco de goiaba que não gosto muito. O dinheiro estava meio escasso por causa de todos os remédios, mas nunca passamos fome. Meu pai garantiu isso para nossa família. Enfim, não teve sobremesa. Eu agradeci a comida e levei meu prato para a pia. Voltei e peguei meu copo, sempre usando a outra mão para me apoiar nos móveis. Deixei o copo na pia e andei até meus pais poderem me ver. Falei que não estava me sentindo bem. Tossi muito forte e vi o sangue voando pela minha boca. Fechei os olhos.

Quando acordei aqui, neste hospital, eu estranhei sentir o corpo rígido. Uma enfermeira se assustou ao me ver acordado e me contou que estava em coma. Eu não aguentei e ri ao notar qual era a última coisa que eu me lembrava. Eu deixei o copo na ponta da pia. Alguém poderia derrubar e quebrá-lo. Uma lembrança de cinco anos atrás, ainda fresca em minha memória.



Categorias Lost Grounds, Trecho de Livros

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