La fleur blanche

Publicação: 15 de outubro de 2010

Ando distraído na rua enquanto meus passos me levam pra casa. O frio me faz tremer e ranger os dentes. Dentes que se abrem em um sorriso sempre que lembro do encontro que tive. A Larissa estava linda e nos divertimos muito. E a comida, céus, adoro aquele restaurante. Amanhã de tarde vou ligar pra ela do serviço e convidá-la pra sair de novo. Acho que é a primeira vez que estou realmente chamando uma garota pra sair e levando pra jantares e fazendo essas coisas.

O vento sopra mais uma vez e algo bate em meu rosto. Eu me assusto e bato em meu próprio rosto, vítima do reflexo. Quando abro os olhos percebo que está nevando e foi isso que bateu em meu rosto, embora nunca tenha nevado nesse país. Trazido de volta para a realidade, eu ignoro a neve e aperto o passo até notar um som de violão ecoando pela rua. Olho ao redor e, embora eu consiga reconhecer o local, a neve dá um toque surreal, talvez até irreal no cenário. Em uma vitrine cheia de flores há um homem sentado na calçada tocando seu violão. A melodia é calma, linda e me impediu de dar um passo a mais sequer. Apesar do frio intenso e que só aumenta, eu paro de tremer e fecho os olhos. A sensação do vento e da neve batendo em meu rosto cria na minha mente a imagem de uma neve que dança conforme a música, fazendo suas acrobacias aéreas enquanto cai.

A música para e eu sinto meu braço esquerdo começar a formigar. Eu abro os olhos e vejo o homem se levantar. Alto, com um cabelo grande que cai em seus ombros e usando somente uma uma calça jeans com um sobretudo verde-escuro. Ele faz uma reverência pra mim enquanto sorri, se vira e começa a caminhar assoviando a mesma melodia de antes. Seu violão, preso por uma correia em suas costas, reflete a fraca luz da lua e dos poucos postes de luz que estão perto, adquirindo uma aura sobrenatural. Fica difícil respirar e meu peito começa a doer. Eu fico com medo e o chamo. Minha boca se move, mas a voz não sai. O medo se transforma em pânico e eu dou um passo na direção dele esticando a mão para alcançá-lo. Escorrego e caio pra frente vendo a calçada se aproximar a uma velocidade assustadora. Do lado esquerdo da testa, uma forte dor se espalha pelo resto da cabeça enquanto o sangue quente escorre do centro da dor. Com o braço ainda esticado tento chamar o homem uma vez mais e o vejo desaparecer na noite. Deixo o braço cair na calçada enquanto olho para as flores da vitrine. Sinto uma fria lágrima escorrer pelo meu rosto. Sinto o meu corpo ceder ao frio intenso como se fosse congelar. Sinto mais dor no peito. Leio acima da vitrine o nome da floricultura: “La fleur blanche”.

Não sinto mais nada.



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