Eternidade

Publicação: 22 de janeiro de 2010

Dia após dia, André se levantava e ia até o banheiro. Tomava um banho. Escovava os dentes. Saia do banheiro e tomava café da manhã na cozinha. Leite e pão. Pão com geléia. Morango. Gostosa. Ele cuspiu o leite na pia ao primeiro gole. Azedo.

Terminou o café da manhã e voltou ao banheiro. Fez as necessidades básicas do ser humano e foi ao quarto se trocar.

Terno, gravata e pasta na mão. Assim, todos os dias, ele saia de casa. Quando se aproximava da porta do prédio, o porteiro abria a porta. Nos últimos dias, ele estava sempre sorrindo. E algo em seu enorme sorriso o fazia se lembrar de seu chefe. Não conseguiu evitar de se lembrar dos relatórios que ele vinha pedindo. Todos para ontem, ele costuma dizer.

“Até parece que ele está me assombrando”, ele pensou.

As ruas vazias. Ele andou até o ponto e aguardou o ônibus. Quando ele chegou e as portas se abriram, ele viu o motorista que estava sorrindo. Esse enorme sorriso também o fez lembrar de seu chefe. O ônibus estava cheio. Todas as pessoas sorriam. Ele ficou de pé lutando por um espaço. Para cada lado que olhava, se lembrava dos gritos do chefe quando um prazo não era comprido.

Desceu perto do metro e entrou. Mal conseguia andar entre a multidão, era empurrado enquanto tentava chegar até os trens. As pessoas que passavam por ele sorriam. Incomodado, achou ter visto seu chefe muitas vezes. Não entrou no trem, foi levado para dentro dele. Quase carregado. E aqueles sorrisos para todos os lados. Ser carregado pelos outros era inaceitável, então eu teria que dar o triplo de mim. Era a frase favorita do meu chefe quando me via descansar um pouco. Claro que ele passava mais tarefas para se certificar que eu não descansasse mais.

Saiu do metro e olhou para o céu azulado com poucas nuvens. Uma pequena caminhada de 2 minutos até o serviço e então estaria com o ar-condicionado e sua cadeira. E com o seu chefe.

No caminho ele olhou para a banca de jornal. O jornal sempre chamava sua atenção, mas ele nunca pegava um exemplar.

“De desgraça já basta minha rotina”, ele resmungou.

Quando decidiu seguir em frente, viu uma foto no jornal que parecia com ele.

“Se perder tempo com bobagens irei me atrasar”, disse afastando a idéia absurda.

Antes de ser capaz de tirar os olhos do jornal, leu na manchete a palavra “Suicídio”. Dando de ombros, ele continuou.

“Essa idéia eu já superei”, ele se animou um pouco.

O homem da banca de jornal o observava com um sorriso enorme no rosto. O sorriso também o fez lembrar do seu chefe. Mas ele decidiu ignorar a semelhança. Teria muita coisa para se preocupar no serviço já que tudo parecia estar se aglomerando em sua mesa. Por mais que desse o sangue pela empresa, não conseguia contentar seu chefe.

“Porque ele não leva minha alma logo?”, pensou irritado.

Apertou os olhos por causa do sol que se erguia. O dia, que nunca parecera tão belo, passou. Ocupado demais ele não teve chance de aproveitar. Não teve tempo sequer de almoçar para relaxar um pouco. Muitos relatórios deveriam ser feitos. Seus prazos curtos. Tudo que ele ouvia eram gritos nervosos. Gritos que apressavam. Gritos que ordenavam. E, entre os gritos, aquele sorriso. Sorriso que ele aprendeu a odiar. Que fazia parecer que o chefe se divertia com isso tudo. Ao ver que a papelada estava acabando e que iria embora no horário ele se animou. Só mais alguns minutos. Se espreguiçou satisfeito. Nesse momento o chefe entrou. O viu relaxar. Seu sorriso fez o que parecia impossível:aumentou ainda mais. Entrou um outro homem, também sorrindo, e colocou mais papelada na mesa. Os minutos a mais se tornaram horas. Temendo que mais tarefas chegassem, ele tentou retomar o serviço. A energia acabou. Feliz com o imprevisto se levantou para ir embora. Outro homem entrou com canetas e papéis, como se a queda de energia fosse esperada.

Saiu bem tarde do serviço. O estômago roncou e os braços tremiam levemente. Andou desanimado até uma bar na esquina. Comprou um salgado. Saiu mais preocupado em comer o salgado do que com os sorrisos de todos do bar. A voz do chefe ainda ecoava em sua cabeça com tantas ordens. Dois passos fora do bar e ele tropeçou. O salgado foi esmagado entre sua mão e o chão. A pasta voou um pouco a sua frente e se abriu. Um vento soprou, mas ele conseguiu fechar a pasta antes que algo pudesse sair voando. Ao olhar para o lado, viu um motorista sorridente se aproximar sem frear. Saltou para trás xingando mais seu dia do que o motorista. Se lembrou do chefe falando de como seria atropelado pelos outros se ficasse distraido. Ele também fala que a melhor coisa pra cuidar da distração é mais serviço.

Andou até o metro. No caminho todos pareciam estar comendo algo.

“Maldita fome”, pensou enquanto o estômago roncava.

Conseguiu se espremer em um trem e levou uma cotovelada nas costelas. A dor o fez praguejar entre todas as pessoas com seus enormes sorrisos. Foi cuspido do metro aonde deveria descer e quase caiu no chão. As pessoas passavam por ele sorrindo. Se sentiu um pouco humilhado e lembrou do que passou na reunião. Foi dado como exemplo de desleixo.

Subiu no ônibus desejando que houvesse algum ar condicionado. O cheiro de suor parecia insuportável, mas só para ele. Pois os outros que estavam no ônibus lotado possuem enormes sorrisos. Quando chegou ao seu ponto, quase o perdeu. Para que isso não acontecesse soltou a mão de apoio e deu o sinal. O ônibus freou e ele beijou o sovaco de um dos homens do ônibus. Temeu alguma reação, mas ele simplesmente o olhou com um enorme sorriso. Sorriso que parecia repetir o que eu já cansei de ouvir. Que preciso tomar cuidado e fazer as coisas direito.

Enquanto andava para sua casa, seu estômago doía de fome, mas era o cansaço que o estava vencendo. Chegou na portaria e o porteiro não estava. A porta trancada. Aguardou 20 minutos e decidiu pular o muro. Jogou a pasta para o outro lado e saltou, se pendurando. Escorregou e caiu. Ao se levantar com dor o porteiro abriu a porta e gesticulou para ele entrar. Teve vontade de fazer o porteiro engolir os dentes daquele enorme sorriso. Eles diziam que mais exercício físico me fariam ficar mais forte. Meu chefe falou isso quando duas caixas de documentos escorregaram da minha mão. Claro que tive que recolher e transcrever o que estragou.

Já do lado de dentro procurou pela pasta no meio do gramado do prédio. Ao avistar a pasta, mergulhou o pé em uma poça de lama.

“Belo dia para se molhar as plantas, seu idiota”, rosnou.

Na frente do elevador leu uma placa. Manutenção. Respirou fundo e subiu as escadas. Quase escorregou graças ao sapato da lama.

“Seria bom demais cair agora e quebrar o pescoço, não?”, ele riu enquanto subia.

Ofegante, chegou no 12º andar, onde ficava o apartamento 123, sua casa. Abriu a porta e entrou em casa.

Faminto, cansado e dolorido. Caiu no sofá.

“Pelo menos hoje é sexta-feira”, pensou antes de adormecer.

André se levantou da cama e tomou um banho. Escovou os dentes. Saiu do banheiro e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou o leite. Olhou e decidiu passar geléia no pão. Morango. Gostosa. Cuspiu o leite.

Azedo.


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