Despertar

Publicação: 1 de fevereiro de 2010

O sangue escorre pelo meu rosto do lado direito da minha cabeça. Manchas vermelhas surgem na terra. Com sorte, o ferimento é superficial. Me arrasto para longe ofegante. Ergo a cabeça. Nossos olhos se encontram.

Bia está caída de joelhos alguns metros adiante. Seus olhos marejados procuram um jeito de me ajudar. Ouço a risada atrás de mim. Um chute no lado do meu corpo me faz rolar e ficar de barriga para cima. As nuvens passeiam lentas pelo céu. Luis está parado na minha frente. Sabe que venceu. Seu cabelo curto e escuro cai sobre os olhos. Fecho o punho e tento me levantar. Ele coloca o pé sobre meu pulso. Seu peso causa dor fazendo com que eu abra a mão novamente e desista.

Tudo começou algumas semanas atrás quando o Luis entrou na mesma faculdade que eu e se interessou pela minha namorada. Começou a mexer com ela. Quando fui mandá-lo parar, ele riu. Aceitou como um desafio. Colocou a mão direita no meu ombro e disse que meu medo lhe dava uma chance. Virou as costas e saiu rindo. Desde então começou a nos perseguir, tentando tornar minha vida um inferno. Ele começou primeiro a andar com o pessoal da minha turma. Fez com que gostassem dele e plantou idéias de que eu o perseguia. Me provocou enquanto eles não estavam e, quando chegaram, se fez de inocente. Acreditaram nele. Usou isso como desculpa para não andar mais com eles, o que piorou tudo. Para minha turma, eu não somente perseguira e tentara agredir um novato indefeso, como também os privara de tê-lo como amigo.

A desculpa abriu portas para Luis se infiltrar no grupo de amigos da Bia através de uma garota que conheceu com a minha turma. Todos ali passaram a gostar dele e em pouco tempo ele já estava saindo sempre com eles. Como antes, a imagem do rapaz-novo-na-faculdade foi muito util. Sempre que podia ele elogiava a Bia e dava crédito para ela até pelos menores detalhes. No entanto não excedia nenhum limite, fazendo com que todos entendessem suas intenções, mas admitissem que ele fazia somente o que tinha direito. Ganhou as melhores amigas da Bia, que nunca gostaram de mim. Elas começaram a perguntar pra Bia porque ela não dava uma chance pro Luis.

Mas a Bia nunca gostou dele e jamais gostará. Soube que há algo de errado com ele desde o início. Entre nós dois, eu fui o inocente, julgando-o estranho e problemático, mas não perigoso. Sentia dó. Mas aquela voz no fundo da minha mente sussurrou para eu tomar cuidado. Essa voz me passa segurança e faz com que eu me sinta capaz de tudo, então sempre dei muita importância a ela. Por isso, quando a ouvi, tomei seu conselho como algo valioso. Tomei cuidado e não fiz nada imprudente, evitando-o. Até hoje.

É quinta-feira por volta das 18 horas e estávamos na casa dela, assistindo um filme. Como toda quinta, minha sogra saiu de casa para seu curso. Bia e eu ouvimos vozes na porta, então fui ver por uma janela se estava tudo bem. Conversando com a mãe dela como velhos amigos, estava o Luis. Entre palavras, risos e sorrisos, a mãe da Bia o convidou para um almoço. Ele me viu, sorriu, tornou a olhar para ela e aceitou empolgado. A sogra disse que ia se atrasar pro curso e se despediu saindo apressada. Luis acenou para mim e começou a ir embora. Farto dessa perseguição, decidi por um basta, mas o desgraçado sabe lutar. Mal consegui oferecer alguma resistência. Tentei fugir e voltar para dentro, mas ele correu atrás de mim, me alcançando no jardim. Bia me viu correr e veio ao nosso encontro desesperada. Viu meu rosto ensanguentado e como eu tentava fugir e me defender. Ouviu ele rindo enquanto me batia.

Luis desvia o olhar de mim pela primeira vez e a encara. Ela começa a chorar. Lágrimas rolam pelo seu rosto. Ouço um grito no fundo da minha mente que abafa o som do choro. Do fundo da minha mente ouço aquela voz, normalmente calma e agora furiosa. Sorri e, pela primeira vez, abracei aquela sensação por completo. Não só me senti capaz de tudo, mas agora sentia que todos eram inferiores. Todos se tornaram inúteis e fracos sob meus olhos. O nervosismo e a dor foram embora. Foi  tudo substituído por uma vontade de fazê-lo pagar. De humilhá-lo. De matá-lo.

Meu braço se ergueu num gesto violento e jogou o pé do Luis para trás tirando seu equilíbrio. Quase caiu. Notei que não estava mais no controle do meu corpo, mas isso não importa. Em um salto estava de pé avançando na direção dele. Os olhos de Luis se arregalaram. Medo e Terror estampado neles. Assisti meu corpo desferir socos e chutes devastadores. Ele tentou revidar, mas não sentimos nenhum dos poucos socos fracos que levamos. Então ele tentou fugir. Notamos isso e demos um chute em seu peito, jogando-o brutalmente para trás. Nos agachamos perto de seu rosto e o socamos ainda mais. Sangue começou a voar enquanto nossos punhos desciam e subiam violentamente.

Um grito vitorioso surgiu em nossa mente. Gritamos em resposta aumentando o ritmo dos socos.

“Para!”, ouvi um grito distante.

Era a Bia. Minha visão estava escurecendo e meus outro sentidos sumindo. Junto cada porção do que sobrou da minha força de vontade e retomo o controle do meu corpo. Dolorido e mentalmente exausto, ouço mais uma vez aquele grito furioso ecoar em minha mente. Percebo agora que parece mais com um rugido e não um grito humano. Algo ruim. Olho para o corpo caído na minha frente. Morto. Me viro e a vejo. Nossos olhos se encontraram novamente, mas ela não aguentou me encarar. Tremia de medo. A raiva começou a se apossar de mim, pois tudo isso aconteceu por causa dela. O desejo de fazê-la pagar pela ingratidão surge. A criatura tenta tomar o controle. Bia percebe e se encolhe.

Respiro fundo e firmo o controle. Seja lá o que for não é bom. Bia sabe disso. Eu sinto isso. Agora que ela está segura do Luis, eu preciso deixá-la a salvo de mim. Levanto e corro. Penso em como nunca reparei que aquela voz, tão sábia e protetora, era na verdade um demônio, um monstro. O que será que eles viram em mim para ter tanto medo? O que é isso?!

“Você sabe quem sou…”, ele volta a sussurrar.

Corro mais rápido.

“Do que você está fugindo? Se estivermos juntos, você não precisará fugir de nada. Não precisará temer nada.”, o tom de superioridade até então despercebido está evidente agora.

“Eu não preciso de você. Não preciso!”, respondi furiosamente sentindo lágrimas escorrerem.

“Você conseguirá algo sozinho, mas não tudo! Comigo será bem mais fácil. Você não quer alcançar todos os seus sonhos? Seus desejos? Você não quer tê-la só para você? Volte…”, o som do vento não abafa a voz que vem das profundezas da minha mente.

Agora que eu o acordei por completo ele jamais se calará novamente.



Categorias Trecho de Livros, Ascenção dos Sete(título não oficial), Lost Grounds

2 Respostas para
     “Despertar”

  • Lidia Zuin disse: 1 de fevereiro de 2010

    Uma narrativa colegial misturada à ficção criada por um conflito interno. Não é novidade, a metáfora do demônio interior… assim como não é novidade o ciúme e o ódio por aquele que tenta roubar o que lhe é sagrado. Talvez fosse mais interessante explorar o ponto de vista da Bia, deixá-la menos “coadjuvante”, ainda que a narrativa esteja em primeira pessoa. Em vez de culpar o demônio, seria legal desvendar porque esse Luis queria tanto seduzir a menina. :)

  • Alliah disse: 1 de fevereiro de 2010

    “Agora que eu o acordei por completo ele jamais se calará novamente.”

    Isso dá pano pra muita narrativa psicológica, e com esse background do conto, seria interessante fazer uma mescla entre o onírico e o psiquiátrico, deixando a fantasia na dúvida de ser real ou não…

    Aliás, gostei do texto! =)

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