Adeus…

Publicação: 13 de março de 2010

– Você não pode partir! – eu falei segurando as lágrimas.

– Eu tenho que ir, garoto. – ele falou sereno.

O barco é pequeno, cabe no máximo duas pessoas. No entanto, ele vai sozinho. Não consigo entender o motivo, mas é assim que ele parece querer. É uma pessoa que todos gostam e, por isso, ninguém entende completamente porque ele vai partir. Mas no fundo, todos sabem. Pelo menos um pouco…

Quando era criança, vinha até a praia quase todo dia e foi aí que o conheci. Desde então ele me ensinou muitas coisas e, com seus conselhos, me tirou de muitos problemas. Claro que os problemas eram, em sua maioria, coisas bestas de criança. Mas hoje, poucos anos depois, eu já estava acostumado a ver suas ações e aprender com elas. Nunca houve uma vez que ele ficou sem palavras. Se houve, eu não presenciei. Não sei quando eu passei a querer ser ele. Querer ser tão querido, tão respeitado, tão… tudo… como ele.

Mas agora que ele está de partida eu jamais irei aprender. Sua casa ficará vazia e seus pertences foram doados. Os poucos que restaram (os mais importantes, segundo ele) estão naquele barco. Barco que mal consigo olhar, pois o sol da manhã brilha muito forte atrás dele. E essa cena me faz pensar que ele parece um daqueles cavaleiros indo rumo ao desconhecido sem temer o perigo.

– Você vai voltar, não vai? – perguntei quebrando o silêncio com a voz rouca.

– Não. – ele sorriu – Você vai se sair bem.

Quando ele respondeu, eu não aguentei mais e comecei a chorar. Sentia algo sendo arrancado de mim ao vê-lo partir. Antes, embora soubesse, nunca pareceu verdade. Mas agora que está acontecendo, é bem pior do que eu havia pensado. Notei que em seus olhos há um pouco de tristeza e não só determinação. Desviei o olhar e encarei o mar. Senti-o afagando minha cabeça e as lágrimas ficaram mais intensas.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, olhando o mar. Talvez vinte minutos, talvez mais, talvez menos. Só sei que, quando me virei novamente, o barco já estava alcançando o horizonte. Me lembrei de quanto tempo ele levou para reparar aquele barco e em tudo que fez enquanto isso. Lembrei das conversas que tivemos olhando aquele mesmo mar. Sorri, feliz pela vida que levou aqui e sabendo que ele será tão importante pra alguém aonde vai, quanto é pra mim. Sentei no chão e abracei os joelhos. Entre as lágrimas e os soluços disse somente uma palavra mais para ele.

– Adeus.



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6 Respostas para
     “Adeus…”

  • Lisa disse: 13 de março de 2010

    Que lindo!!!… é simplesmente verdadeiro… uma metáfora maravilhosa!!!…

  • Bri disse: 13 de março de 2010

    Ficou realmente muito bom… Parabéns, amor.

  • Paulo Fodra disse: 13 de março de 2010

    Muito bom, gafanhoto. Eu ainda não consegui parar de olhar para o horizonte, onde o barquinho sumiu…

  • Zé Luís disse: 13 de março de 2010

    Todos nós brincamos na mesma praia que você visitou tantas vezes. Todos nós olhamos o mesmo mar. Todos aprendemos a amar e respeitar o velho barqueiro, e sentiremos a mesma falta. Talvez não com a elegância com que você registra o que sente! Parabéns e obrigado.

  • Lisa disse: 13 de março de 2010

    Eu não consigo parar de ler isso… sinto falta do barqueiro… é como se você tivesse encontrado as palavras que eu não encontrei…. um beijo no seu coração…

  • Bri disse: 13 de março de 2010

    Acho que esse é o melhor texto que você já escreveu…

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